A solidão quebra mais empresas que a economia

A solidão quebra mais empresas que a economia
Photo by Jan Genge / Unsplash

Começo 2026 com uma convicção que ficou clara depois de muitos anos conversando com empresários reais, não de palco, não de feed, empresários que carregam folha de pagamento, família, sócios, riscos e noites mal dormidas.

O Brasil não sofre por falta de iniciativa.
Sofre por excesso de solidão decisória.

Todos os anos, milhões de empresas nascem.
Ideias surgem, negócios começam, pessoas arriscam tudo.

E, ainda assim, a maioria dessas empresas não chega longe.

Os dados são públicos, conhecidos e recorrentes.
Uma parte relevante fecha nos primeiros anos.
Poucas atravessam cinco anos com saúde.
Menos ainda chegam a uma década com clareza, estrutura e escolha.

Esse fato costuma ser explicado da forma mais fácil possível.
Dizem que falta preparo.
Que falta gestão.
Que falta educação empresarial.

Essa narrativa é confortável.
Mas é incompleta.

Nunca houve tanta informação disponível para quem empreende.
Cursos, livros, vídeos, podcasts, especialistas, frameworks.

Informação não é mais o problema.
Decisão é.

O empresário brasileiro não quebra porque não sabe.
Ele quebra porque decide sozinho.

A jornada do empreendedor é, por definição, solitária no início.
Isso faz parte do jogo.

Mas em algum momento, quando a empresa cresce, quando o erro fica caro, quando a margem de improviso desaparece, essa solidão deixa de ser natural e passa a ser perigosa.

As decisões ficam maiores.
O impacto aumenta.
O custo do erro sobe.
O espaço para testar diminui.

Nesse estágio, o empresário já não pode errar como antes.
Já não pode expor dúvidas para qualquer um.
Já não encontra pares no mesmo nível de responsabilidade.

Ele até continua cercado de pessoas.
Mas está sozinho para decidir.

Empresas raramente quebram por um único erro.
Elas morrem aos poucos.

Morrem por decisões adiadas.
Por conflitos não enfrentados.
Por crescimento sem estrutura.
Por cansaço silencioso do fundador.
Por falta de critério quando tudo parece urgente.

A empresa segue aberta.
O faturamento, às vezes, cresce.
Mas a clareza diminui.

Até que um dia, não há mais escolha.
Só consequência.

Existe seguro de vida.
Existe seguro patrimonial.
Existe seguro para quase tudo.

Mas não existe, no Brasil, uma infraestrutura pensada para proteger a decisão do empresário.

Não existe check-up recorrente da saúde do negócio.
Não existe ambiente confiável para decisões difíceis.
Não existe comparação honesta com pares reais.
Não existe acompanhamento de longo prazo para quem já chegou longe demais para errar sozinho.

O empresário ainda é tratado como alguém que precisa aprender mais.
Quando, muitas vezes, ele precisa apenas não decidir isolado.

Talvez o próximo estágio do empreendedorismo brasileiro não seja mais educação.
Seja consciência.

Consciência de risco.
Consciência de limite.
Consciência de momento.
Consciência de decisão.

Não para impedir o erro.
Mas para evitar o erro silencioso, repetido, solitário.

O Brasil não precisa de mais estímulo para abrir empresas.
Precisa de maturidade para mantê-las vivas.

Empresas fortes não nascem do excesso de coragem.
Nascem da qualidade das decisões ao longo do tempo.

E decisões grandes não deveriam ser tomadas no isolamento.

Talvez o problema nunca tenha sido falta de capacidade.
Talvez tenha sido falta de companhia para decidir.