O Brasil não quebra por falta de vontade. Quebra por solidão.

O Brasil é, por natureza, um dos países mais empreendedores do mundo. Todos os anos, milhões de novos negócios ganham vida, movidos por ideias promissoras e pessoas dispostas a arriscar o que têm. No entanto, a estatística é implacável: a maioria não sobrevive ao longo prazo. Segundo o Sebrae e o IBGE, poucas atravessam o marco dos cinco anos; menos ainda chegam a uma década com saúde financeira.

Geralmente, usa-se esses números para alimentar uma narrativa simplista: a de que o empresário brasileiro é despreparado, falta gestão ou falta educação.

Essa explicação é confortável, mas está incompleta.

O problema real não é a escassez de informação. Nunca tivemos tanto acesso a cursos, podcasts, livros e especialistas. A informação hoje é abundante; o que falta é o suporte para a decisão. O empresário não quebra necessariamente por ignorância técnica, mas porque carrega o peso de decidir sozinho.

O silêncio do crescimento

Conforme uma empresa escala, algo muda nos bastidores. O jogo fica mais pesado: as decisões ganham volume, o erro torna-se exponencialmente mais caro e a margem para testes diminui. É nesse estágio que o fundador se vê em um paradoxo: ele está cercado de pessoas — colaboradores, fornecedores e clientes — mas não tem com quem dividir suas dúvidas mais profundas. Ele não pode demonstrar insegurança para o time, nem encontra pares que compreendam o tamanho da sua responsabilidade.

Empresas raramente morrem de um infarto fulminante. Elas morrem por uma sucessão de pequenas negligências:

  • Decisões estratégicas sistematicamente adiadas;
  • Conflitos internos que ninguém tem coragem de enfrentar;
  • Um crescimento acelerado que atropela a estrutura;
  • O cansaço silencioso de quem não tem onde desabafar.

O faturamento pode até continuar subindo, mas a clareza diminui. Até que, um dia, o empresário não tem mais escolhas a fazer — resta apenas lidar com as consequências.

A peça que falta no mercado brasileiro

Temos seguros para quase tudo: vida, patrimônio, responsabilidade civil. Mas ainda não criamos uma infraestrutura que proteja o processo decisório de quem comanda. Falta ao empresário brasileiro um ambiente de "check-up" recorrente, onde ele possa confrontar sua realidade com pares e ter um acompanhamento que vá além de uma consultoria pontual.

Fomos educados a acreditar que o empreendedor precisa sempre "aprender mais". Na verdade, muitas vezes ele só precisa não decidir isolado.

2026: O ano da maturidade decisória

Se a educação foi o primeiro passo e o acesso à informação o segundo, o próximo estágio é a consciência empresarial. Isso significa ter clareza sobre riscos, limites e, principalmente, sobre o momento de pedir uma segunda opinião.

O Brasil não precisa de mais estímulos para abrir empresas; precisamos de maturidade para mantê-las vivas. Negócios sólidos não são fruto de uma coragem cega, mas da qualidade das decisões tomadas ao longo dos anos.

No fim do dia, o grande gargalo do desenvolvimento brasileiro talvez não seja a falta de capacidade técnica, mas a ausência de uma rede de apoio estratégica para quem decide.